|
No contexto de
uma sexualidade bem
integrada na pessoa, segundo
o projeto do Criador e
acessível à razão, a
continência vivida por
muitos casais se exprime
como gesto maduro inerente à
relação sexual, que visa o
bem dos cônjuges e a
abertura à vida.
I – Continência e castidade
Não há como
tratar da continência sem
inseri-la em um tema mais
vasto que a engloba e lhe dá
verdadeiro sentido, ou seja,
o tema da castidade. E
quando falamos da
responsabilidade procriativa,
assunto no qual se insere
esta formação, a virtude da
castidade é condição sine
qua nona
('sem
a qual não pode ser’). Longe
de ser uma virtude reservada
aos consagrados, damo-nos
conta de como as Escrituras
e os documentos emanados do
magistério da Igreja, no-la
apresentam como vocação de
todos os batizados.
Segundo o Compêndio do
Catecismo da Igreja Católica,
“a castidade é a integração
positiva da sexualidade na
pessoa. A sexualidade
torna-se verdadeiramente
humana quando é bem
integrada na relação de
pessoa a pessoa. A castidade
é uma virtude moral, um dom
de Deus, uma graça, um fruto
do Espírito”.
Entenda-se virtude como uma
disposição interior estável
a buscar e realizar aquilo
que é bom e verdadeiro. Em
suma, a virtude se
caracteriza pela energia
investida pela pessoa na
busca do bem. Portanto, a
virtude da castidade assume
o papel de integrar e
orientar os desejos
provindos das pulsões
instintivas e emocionais que
estão no homem, visando o
verdadeiro amor. “A pessoa
casta mantém a integridade
das forças de vida e de amor
em si depositadas. Esta
integridade garante a
unidade da pessoa e opõe-se
a qualquer comportamento
susceptível de ofendê-la.
Não tolera nem a duplicidade
da vida, nem a da linguagem”.
Assim sendo, a castidade na
vida de qualquer pessoa como
na vida do casal tenderá a
esta harmonia das forças de
vida e de amor ao se dar
como meta o aprendizado do
domínio de si. Este grande
empreendimento requer
dedicação e desejo de amadurecimento, animados pela
graça divina, pois só com o
auxílio divino, com as
virtudes que dele provêm -
nisto a virtude da
temperança tem um papel
relevante -, poder-se-á
colher bons frutos nesta
matéria. Tais frutos serão
expressão de uma verdadeira
liberdade humano-afetiva.
Com efeito, aqui podemos
falar com mais clareza da
continência, não somente
como disciplina exterior,
mas como elemento
constitutivo da virtude de
castidade. Por isso, na
aparente negação das pulsões
sexuais e emotivas, nota-se
sua abertura à positiva
integração na manifestação
afetiva de toda a pessoa
quando se relaciona com os
outros, e, mais ainda,
quando da relação sexual.
“A continência, na verdade,
recolhe-nos e reconduz-nos
àquela unidade que tínhamos
perdido, dispersando-nos na
multiplicidade".
São Paulo elenca a
continência entre alguns
atributos que designa como
frutos do Espírito Santo, na
sua carta aos Gálatas: “Ao
contrário, o fruto do
Espírito é caridade,
alegria, paz, paciência,
afabilidade, bondade,
fidelidade, brandura,
continência (έγκράτεια).
Contra estas coisas não há
lei”.
Pode-se, então, resumir com
Dom Melina o que se pretende
aqui evidenciar: “A
castidade é o desejo
orientado pela razão; é a
sensibilidade instintiva e
emotiva não reprimida, e sim
educada para alcançar a
pessoa do outro em sua
verdade plena. Ela é virtude
do amor verdadeiro, como
sincero dom de si e como
autêntico acolhimento do
outro”.
II
– A Castidade preservada
pela continência
Não obstante a
possibilidade de se
compreender a beleza da
vivência da castidade na
vida de qualquer pessoa e
também na vida do casal,
nossa natureza enfraquecida
pelo pecado original sempre
se depara com
comportamentos, situações e
orientações que tendem a
denegrir e desvirtuar o
verdadeiro sentido da
sexualidade. As atitudes de
vigilância e abandono ao
socorro da graça divina são
capitais. A Igreja, como mãe
e mestra, percebe este
desafio e busca nas Sagradas
Escrituras e na sua Tradição
indicações e orientações que
são de suma importância
quando nos confrontamos com
o tema da castidade e da
continência. Com efeito,
Paulo nos alerta em algumas
de suas cartas:
Esta é a vontade de Deus: a
vossa santificação; que
eviteis a impureza; que
cada um de vós saiba
possuir o seu corpo santa e
honestamente, sem se
deixar levar pelas paixões
desregradas, como os pagãos
que não conhecem a Deus; e
que ninguém, nesta matéria,
oprima nem defraude a seu
irmão, porque o Senhor faz
justiça de todas estas
coisas, como já antes vo-lo
temos dito e asseverado.
Pois Deus não nos chamou
para a impureza, mas para a
santidade. Por conseguinte,
desprezar estes preceitos é
desprezar não a um homem,
mas a Deus, que nos deu o
seu Espírito Santo.
Para tirar proveito do
discurso de Paulo, é
necessário lembrar que ele
escreve a convertidos do
paganismo, num estilo
exortativo e com uma
linguagem classificada de
parenêtica, ou seja, que
chama à retidão moral. Com
efeito, a prática sexual
pagã, do início do
Cristianismo não seguia
necessariamente normas
éticas que valorizavam a
dignidade da relação
humano-afetiva. Elas
aparecem com frequência,
segundo vários autores
antigos, como uma atitude
puramente hedonista, por
vezes presente no âmbito dos
ritos religiosos ou, até
mesmo, da vida pública de
homens e mulheres de um
governo. “A sociedade pagã
da qual vieram os cristãos
considerava a promiscuidade
sexual e o permissivismo
perfeitamente normais (Cf.
Cicero, Pro Coelio
20.48).
Nestes textos, Paulo se
ataca a toda sorte de
imoralidade sexual como
atitude comumente admitida e
totalmente irresponsável no
que concerne à vocação e,
poder-se-ia dizer, à
dignidade das pessoas.
Parece-nos que
hodiernamente há como um
retorno a certo tipo de
paganismo em matéria de
sexualidade. Até mesmo em
casais cristãos, por vezes a
prática da sexualidade é experienciada através de
formas inaturais, como, por
exemplo, o sexo oral e anal
.
A consciência de muitos se
aflige, mas tantos outros,
devido à propaganda em larga
escala de temas eróticos,
acabam sucumbindo. Assim a
consciência se enfraquece
cada vez mais e se confunde
na sua capacidade de avaliar
retamente os atos. Toda
sorte de permissivismo então
floresce em meio aos
impulsos sexuais, como
fantasias eróticas e
experiências a três ou entre
casais (conhecido como
swing).
O Cristianismo soube se
demarcar destas práticas
desde os primórdios. A
propósito da vida dos
cristãos, um autor antigo
nos diz o seguinte:
Mas o seu modo de viver é
admirável e passa aos olhos
de todos por um prodígio.
Habitam em suas pátrias, mas
como de passagem; têm tudo
em comum como os outros
cidadãos, mas tudo suportam
como se não tivessem pátria.
Todo país estrangeiro é sua
pátria e toda pátria é para
eles terra estrangeira.
Casam-se como toda gente e
criam seus filhos, mas não
rejeitam os recém-nascidos.
Têm em comum a mesa, não
o leito.
A moral cristã, incluindo a
verdade da lei natural que
se impõe ao homem pela
razão, exprime-se sobretudo
como a vontade de Deus, que
deseja que todos sejam
santos à sua imagem. Por
isso, podemos entender a
exigência da pureza carnal,
a fim de que a santidade se
estendesse sobre o corpo e
suas pulsões sexuais. Eis a
vocação da vida cristã: chegar à perfeição que
exclui toda desordem
espiritual e física. Por que
não enxergar aqui o realismo
da Encarnação do Verbo de
Deus, que opera uma ascensão
da natureza humana,
abarcando a realidade física
do corpo humano?
Todavia, por vezes alguns
caíram no erro de matiz
platônico que consistirá na
negação do corpo e suas
potencialidades. Contudo uma
leitura atenta do conjunto
da obra de Paulo, bem como
das palavras do próprio
Senhor, se dará conta que
não é esta a mensagem do
Cristianismo. Ele nos lembra
o quanto o corpo é templo do
Espírito Santo (cf. 1 Cor
6, 15. 18-20), e o quanto
devemos administrá-lo com
dignidade e respeito –
inclusive no respeito do
corpo do outro (cf. Ef
5, 28-31). Mais uma vez a
continência emerge como
possibilidade de acolhida do
“meu” corpo e do corpo do
outro como dom. A
continência evidenciará o
aspecto do respeito da
pessoa como um todo,
guardando-se até mesmo do
menor gesto ou pensamento
que viria a reduzir o outro
a um puro objeto do desejo
sexual (cf. Mt
5,8.27-28).
III – Como
conclusão : A continência e
a vivência madura da
sexualidade aberta à vida
“Eis que homens
que ao grito de ‘Avante com
o sexo!’ se precipitam
sobre o mundo das mulheres
em avalancha. Semelhantes
‘donos da criação’, que
obstinadamente não querem
tornar-se adultos, insistem
no fato de que se sentem o
impulso ‘natural’, a mulher
deve estar à sua disposição”.
A esta avaliação realista de
Manfred Lütz, pai de
família, psiquiatra e
terapeuta, contrapõe-se a
atitude casta na vida de um
casal, em vista do bem da
união do mesmo e da abertura
à vida. Neste contexto, a
continência desponta como
elemento essencial da
educação afetivo-sexual,
cujo papel não será outro
senão o de tornar a relação
sexual mais humana e bela.
Tal afirmação já é, de fato,
experimentada por tantos
casais que atualmente
assumem uma grande
responsabilidade no que
tange a procriação, e assim
vivem momentos de
abstinência sexual.
Os testemunhos dos esposos
que praticam os chamados
métodos naturais vão neste
sentido.
Obviamente que a
abstinência, que induz a uma disciplina e portanto é fruto
da capacidade de se conter,
não deve ser vista como
sendo somente uma etapa do
planejamento da procriação.
Por isso, não é simplesmente
uma técnica a ser aplicada.
Os casais que incluem de
forma estável e frutuosa a
abstinência em suas relações
afetivo-sexuais como sinal
de castidade conjugal,
dão-se conta de como
determinados elementos
constitutivos da união
conjugal se desenvolvem em
toda sua potencialidade; por
exemplo: o diálogo, a
comunhão em família, as
atenções recíprocas, o
serviço, a doação etc.. É
significativa a afirmação do
texto que citamos acima da
Carta a Diogneto, que
diz que os cristãos não têm
o leito em comum e sim a
mesa! Nisto vemos uma ênfase
do aspecto de comunhão entre
as pessoas, mais do que a
união puramente física dos
corpos.
Num matrimônio adulto,
maduro, os partners
(parceiros) estão
atentos também às
necessidades do outro.
Existem diversos motivos
pelos quais temporária ou
estavelmente também num
matrimônio não é possível
viver totalmente a
sexualidade genital, quer
por uma doença temporária,
quer por um impedimento
persistente. Neste sentido é
válido o princípio : quem
não pode renunciar à
sexualidade, não é idôneo
para o matrimônio.
Contudo uma partnership
(relação)
deveras madura não é
destruída por este fato,
mas por vezes é até
enriquecida.
A abstinência
sexual, presente em certos
momentos da vida de um casal
por diversas razões, assume
grande significado numa
orientação de um projeto de
vida familiar. Os períodos
de abstinências sexual
desenvolverão no casal a
espera e, por isso mesmo, o
autodomínio. Por conseguinte, se há no casal
um real amor conjugal, a
relação física não se
reduzirá à busca do prazer
que um pode dar ao outro,
mas será uma linguagem de
ternura, de desejo de
comunhão e de prazer
partilhado.
Todavia é
legítimo se questionar sobre
como atravessar tais
momentos de abstinência
sexual, sobretudo quando a
mulher está no seu período
fértil e, por isso mesmo,
normalmente mais propensa à
união sexual.
Como já foi aqui mencionado,
estes períodos de
continência no casal serão
um motivo de abertura para
outras realidades que
fundamentam a vida conjugal.
A atenção ao diálogo e à
ternura entre os dois, a
dedicação ao serviço e à
atenção recíproca nas
pequenas coisas do
dia-a-dia, e até mesmo
certas carícias, abraços e
beijos solidificarão a união
e amadurecerão as relações
afetivas. Igualmente, a
dedicação ao esporte, à
música, à arte, ao lazer,
será de suma importância,
haja vista que a necessidade
hormonal ativa no ser humano
aí se realizará. Ademais,
quando o casal já tem
filhos, estes períodos serão
propícios para canalizar as
energias afetivas para eles,
que também solicitam uma
relação que passa também
pelos gestos afetuosos,
castos e amorosos do pai e
da mãe.
Desenvolver tais
atitudes se torna hoje cada
vez mais capital para uma
relação verdadeiramente
adulta. Com efeito, alguns
têm procurado fomentar tais
atitudes através de
palestras, formações e
textos, a fim de colaborar
com a realização matrimonial.
Não seria tudo isto uma
grande boa-nova para os
casais?
Referência Bibliográfica
Pio XI, Encíclica Casti Connubii, 1930.
Congregação para a doutrina da Fé, Declaração sobre algumas
questões de ética sexual –
Persona humana, 1975.
Conselho pontifício para a família, Sexualidade humana:
Verdade e significado.
Orientações educativas em
família, 1995.
G. Chapman,
As cinco linguagens do
amor. Como expressar
um compromisso de amor a seu
cônjuge, 2ª ed.
Revisada, Editora Mundo
Cristão, São Paulo, 2006.
F.
Aquino, Vida
sexual no Casamento,
Editora Cléofas, Lorena,
2010.
NOTAS:
Cf.
Melina, L., II- A
responsabilidade procriativa
na visão católica. 3 -
Virtude da castidade e
normas éticas. Seminário
lecionado na UCSal,
Salvador, 2008.
CCIC, n. 488. Pode-se
também fazer a leitura dos
nn. 488-494, ou seus
equivalentes do Catecismo,
que tratam da castidade.
|