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Aqui desponta, portanto, o
elemento de motivação que
guia as reflexões de João
Paulo II: “desde o
princípio”. O que quer
significar isto? Uma
explicação da finalidade das
catequeses dada por
Dom
Carlos Petrini
nos esclarece: “as
catequeses procuram dar
razões da experiência humana
na integralidade das suas
expressões... tudo
reconduzindo ao significado
mais profundo...”.
O princípio ao qual o Papa
se refere designa, portanto,
esta recondução ao
significado mais profundo do
amor humano, da expressão
justa da corporeidade e da
união conjugal. Neste
contexto aparece a célebre
expressão “teologia do
corpo”.
De onde parte a reflexão do
Papa João Paulo II
Tentemos traçar um pouco o
contexto do qual partem e no
qual se inserem as reflexões
de João Paulo II. O Beato,
através desta sua reflexão,
revela sua sensibilidade em
relação às questões
essenciais do homem. A
autora de um artigo recente
do L’Osservatore Romano
afirma que as catequeses do
Papa poderiam ser
relacionadas àquelas
perguntas fudamentais que o
homem deve se fazer: De onde
viemos? Quem somos? Para
onde vamos?
Na verdade, podemos afirmar
que João Paulo II era um
homem visionário. Certamente
não sem o auxílio da graça
de Deus, a quem ele amava e
servia com dedicado zelo. Já
durante o seu ministério
como cardeal da Cracóvia,
ele havia se debruçado sobre
a questão do amor humano
vivido de maneira singular
no matrimônio. Com efeito,
em 1960, ele escreve um
texto que se tornará mais
tarde conhecido e acolhido
de muitos: Amor e
responsabilidade. As idéias
esboçadas neste trabalho do
jovem cardeal são como que o
germe do pensamento das
futuras catequeses. Serão
amplamente retrabalhadas e
aprofundadas pelo Papa.
Neste trabalho, o jovem
cardeal apresenta a base do
seu pensamento filosófico: o
personalismo, cuja fonte de
inspiração está nos
desenvolvimentos do filósofo
alemão Max Scheler
(1874-1928).
O pensamento de Scheler é
empregado para desenvolver
uma concepção do amor e do
casamento inspirada pelo
cristianismo e pela
filosofia do homem de São
Tomás de Aquino. Portanto,
não é surpreendente ver Dom
Wojtyla justificar toda a
moral do amor e do
casamento, tanto no plano
natural como no
sobrenatural, pelo caráter
de pessoa próprio ao homem.
Nós podemos distinguir no
homem três esferas de vida:
a esfera dos sentidos (sensorialidade),
a esfera dos sentimentos e
emoções (sensibilidade) e a
esfera da vontade (moral). O
amor perfeito entre o homem
e a mulher deve ser
“integrado”: a
sensorialidade e a
sensibilidade nunca devem
estar ausentes, mas elas
devem se encontrar
racionalmente subordinadas à
moralidade.
Colocadas as bases de uma
verdadeira antropologia que,
pode-se dizer, provém de uma
elaboração da inteligência
iluminada pela fé, o futuro
Papa parecia já antever todo
o início de uma crise
profunda a respeito do amor
humano e de sua expressão.
Tal crise tem seu ápice com
o movimento de maio de 68,
que estigmatiza uma visão do
homem e da mulher baseada
sobretudo nas duas primeiras
esferas de vida do homem
evocadas acima (sentidos e
sensibilidade),
negligenciando a terceira
(moral). Esta (a moral), por
sua vez, sofreu com as
formas legalistas ao ser
apresentada, por vezes
excluíndo as duas primeiras.
Desde então, se opõem,
portanto, uma visão
permissivista e uma visão
legalista. A primeira
fortemente marcada pela
exacerbação do eros e a
segunda se traduzindo em
perversão do ethos.
A visão do matrimônio que
doravante seria veiculada é
aquela que parecia promover
a “escravidão” da mulher.
Por isso, a libertação da
mulher exigia uma nova
concepção da união esponsal.
As consequências imediatas
serão manifestadas numa
prática sexual
descompromissada com a
fertilidade. Ou seja, passa
a vigorar a preponderância
do gozo sexual numa relação
a dois, onde a união estável
e os filhos vêm em segundo
plano. Uma separação radical
entre o exercício da
sexualidade e a
responsabilidade procriativa,
já que esta era sinônima de
aprisionamento da mulher. A
partir daí, surgem
consequentemente as novas
técnicas de contracepção
sobretudo com a utilização
das pílulas
anticoncepcionais.
Neste contexto é elaborada a
encíclica do Papa Paulo VI,
Humanae Vitae
(julho de 1968), que terá
sua preparação e edição
polemizadas, haja vista que
a própria comissão papal, na
sua grande maioria, era a
favor de que a Igreja se
coadunasse às novas técnicas
de controle de natalidade. O
então Cardeal da Cracóvia
infelizmente foi impedido
pelo governo polonês de
participar da comissão, para
a qual ele havia sido
convidado.
Todavia, João Paulo II
retoma a
encíclica Humanae Vitae
nas suas
catequeses, resgatando
aquilo que de fato ela
pretendia defender: uma
“visão integral do homem” (HV,
7). Ele aprunfundará o tema,
revisitando numerosas vezes
a encíclica e trazendo para
a atulialidade suas
preocupações, em forma de
ensino fundamental da moral
cristã.
As implicações já durante
a elaboração das catequeses
e depois
O resultado do Sínodo dos
bispos de 1980, que tinha
por objeto o estudo dos
deveres da família cristã,
foi a edição da exortação
apostólica Familiaris
Consortio, que João Paulo II
publicou em 1981. Podemos
afirmar que o texto final de
tal documento recebera uma
grande influência das
reflexões mais originais do
jovem papa. De fato, o Papa
seguiu a estrutura base
proposta pelos padres
sinodais. Contudo, se
distanciou da posição de
muitos padres e de algumas
conferências espiscopais que
ainda preconizavam a
contracepção nos moldes
propostos por correntes
feministas, sobretudo.
A visão integral do homem,
como sendo criado à imagem e
semelhança de Deus, na sua
masculidade e feminilidade,
levava o Papa a uma
concepção original, como
vemos nas catequeses, nas
quais se insiste na comunhão
das pessoas através da
doação dos corpos, que ele
chamará de “linguagem dos
corpos”. Tal linguagem, que
exprime uma comunhão íntima
entre o homem e a mulher,
delinea a dignidade da
pessoa como dom. Um dom que
se abre a outro na geração e
educação da prole. Aqui
aparece a concepção cristã
do matrimônio.
Em 1988, as catequeses do
Beato João Paulo, concluídas
quatro anos antes, permearam
o esquema do conteúdo da
Carta Apostólica Mulieris
Dignatatem. Vamos nos
deparar no documento com
linhas de desenvolvimento da
teologia do corpo. Através
desta, percebemos a vocação
profunda da mulher à união
conjugal e à maternidade
como doação. Estes dois
elementos dentro de um
conjunto que está
relacionado com a teologia
da criação do homem e da
mulher, com a teologia
sacramental e pastoral e a
teologia da vida consagrada,
que aponta para as
realidades futuras.
Diante de oposições ao nível
intra-eclesial a este modo
de abordar o tema do
matrimônio e da união
conjugal, pode-se questionar
se o Papa não teria se dado
conta de certas lacunas na
formação moral até mesmo dos
presbíteros e, por
conseguinte, de certo número
de bispos. Com efeito,
havia, poder-se-ia dizer,
uma “falha” no
desenvolvimento dos estudos
em teologia moral; uma
inadequação epistemológica.
Assim, aparece a Encíclica
Veritatis Splendor (1993)
como uma proposta de
precisar o método e o objeto
da teologia moral. Na
verdade, João Paulo II
centra todas as suas
reflexões nas Escrituras.
Este método é proposto na
encíclica. Mais que um
método, trata-se da
centralidade cristológica
dos estudos de moral
fundamental e das
disciplinas específicas de
moral, como a moral sexual e
familiar. Cristo é a palavra
de Deus, a verdade que
ilumina o caminho do homem,
isto é, o seu agir
responsável neste mundo. Ele
se torna a regra, a medida
da lei moral. Ele é a norma!
O confronto com a Palavra
viva, que se deixa consignar
nos limites da escrita
contida nas Escrituras
Sagradas, deve ser a espinha
dorsal da reflexão e dos
questionamentos morais do
nosso tempo. Este método,
que vemos ser desenvolvido
ao longo das catequeses, é
proposto como sendo
incontornável, pois o que
está em jogo não é o
respeito à norma pela norma
– o que seria um legalismo –
antes é a própria vida. A
realização da vocação à vida
no encontro com Cristo, que
nos traz o Evangelho da
verdadeira vida (cf.
Evangelium Vitae, 1995),
significa a realização da
grande dignidade do homem.
Também o Catecismo da Igreja
Católica (CCE), cuja edição
já estava em reorganização
desde 1986, terá o selo
desta extraordinária obra de
João Paulo II, que há muito
fazia discípulos e
estruturava o pensamento
cristão católico em torno às
questões morais, mesmo se
com muitas objeções. Sendo
editado primeiro em francês,
em 1992, terá sua edição
típica latina produzida em
1997. No texto, poderemos
perceber uma doutrina
amadurecida sobre a questão
da criação do homem e da
mulher, do sacramento do
matrimônio e da moralidade
na vivência da sexualidade
dentro e fora do âmbito
conjugal.
Podemos perceber o quanto a
visão intergral do homem,
sobre a qual se desdobra
toda a reflexão sobre o amor
humano e sua expressão, em
particular, na união entre o
homem e a mulher, tem sérias
consequências práticas para
a atualidade, sobretudo nas
últimas décadas. Estamos
rodeados de questões
“espinhosas”, por assim
dizer: preservativos,
anticoncepcionais,
diversidades de uniões
conjugais, aborto,
fecundação artificial e,
mais recentemente, a questão
do gênero e da união
homossexual.
A maior parte destas quetãos
já foi amplamente debatida
em muitos documentos da
Igreja e continuam sendo
aprofundadas nos estudos
teológicos, acadêmicos e
pastorais. Contudo, muitas
vezes, uma boa parcela dos
cristãos católicos
desconhece tais documentos
ou não lhes são apresentados
e explicados devidamente.
Para que a doutrina moral da
Igreja não seja assimilada a
um moralismo legalista ou
como dogmas desprovidos de
razão, urge estarmos a par
da evolução do pensamento
cristão em tais matérias.
Já em 1987, a Congregação
para a Doutrina da fé emitia
uma instrução a respeito da
vida nascente: a questão da
imoralidade do aborto, da
reprodução assitida e da
dignidade da criança. Na
recente instrução Dignitas
Personae, esta posição da
Igreja foi ratificada e
abrageu outros temas de
bioética, devido ao aumento
da técnica no campo da
reprodução assistida e da
manipulação genética.
No tangente à sexualidade
humana, o Pontifício
Conselho para a família
redigiu o documento
Sexualidade humana: verdade
e significado, em 1995, que,
podemos dizer, trata
amplamente da questão da
educação sexual no seio da
família.
Portanto, chegamos à
conclusão de que o conjunto
dessas reflexões morais tem
um débito em relação à
gigantesca obra de João
Paulo II, pois recebe ainda
hoje o ecoar de suas sãs
reflexões proferidas em
discurso.
O esquema das catequeses
e suas fontes
Voltemos às catequeses e ao
seu esquema.
Na última catequese, de 28
de novembro de 1984, o
próprio Beato nos oferece
chaves de compreensão da
estrutura do seu texto.
O autor apresenta a primeira
parte das catequeses (I -
LXXXVI) dando o fundamento
bíblico das mesmas,
indicando os textos que são
propostos como sendo base de
uma “análise das palavras de
Cristo”.
Temos, antes de tudo, o
texto em que Cristo se
refere “ao princípio” no
colóquio com os fariseus
sobre a unidade e
indissolubilidade do
matrimônio (cf. Mt 19, 8; Mc
10, 6-9). Prosseguindo,
temos as palavras
pronunciadas por Cristo no
Sermão da Montanha sobre a
“concupiscência” como
“adultério cometido no
coração” (cf. Mt 5, 28). Por
fim, temos as palavras
transmitidas por todos os
sinóticos, em que Cristo faz
referência à ressurreição
dos corpos no “outro mundo”
(cf. Mt 22, 30; Mc 12, 25;
Lc 20, 35).
A segunda grande parte
(LXXXVII - CXXXIII) é
dedicada à “análise do
sacramento”. Aqui o texto
base é Ef 5, 22-23. Ele
procede a um estudo do
princípio bíblico do
matrimônio, tendo por
referência escriturística o
texto do Gn 2, 24.
Entretanto, João Paulo II
enfatiza o quanto as
reflexões do sacramento do
matrimônio, em suas duas
dimensões essenciais, ou
seja, a dimensão de Aliança
e da graça e a dimensão de
sinal, levaram-no a
aprofundar a
Encíclica Humanae Vitae.
Com efeito, o Papa esboça as
razões pelas quais ele
repropõe o estudo da
encíclica ao longo desta sua
última catequese.
A doutrina contida neste
documento do ensinamento
contemporâneo da Igreja
mantém-se em relação
orgânica quer com a
sacramentalidade do
matrimônio quer com toda a
problemática bíblica da
teologia do corpo,
centralizada nas
“palavras-chave” de Cristo.
Em certo sentido, pode-se
até dizer que todas as
reflexões que tratam da
“redenção do corpo e da
sacramentalidade do
matrimônio”, parecem
constituir um amplo
comentário à doutrina
contida precisamente na
Encíclica Humanae Vitae .
De fato, para João Paulo II,
repropor uma avaliação e
aprofundamento da Humanae
Vitae significa se
confrontar aos
questionamentos sempre
atuais no que concerne a
vida matrimonial e a
procriação. Porém, isto se
dá sob um ângulo bem
preciso, que era como que o
lema de Paulo VI, ou seja, o
desenvolvimento integral do
homem. Este desenvolvimento
integral ou verdadeiro se
desenvolverá a partir dos
aspectos personalísticos
contidos no texto da
encíclica.
Conclusão
À guisa de conclusão seria
bom lembrarmos aqui alguns
termos que pedem
aprofundamentos ulteriores.
O mais importante deles, que
talvez já tenha tido uma
aproximação de nossa
compreensão, é obviamente a
expressão “teologia do
corpo”. Intimamente ligada a
ela estão as expressões
“linguagem do corpo” e corpo
como “sacramento da pessoa”.
Leitura proposta: Cateque
XXIII “Os
interrogativos sobre o
matrimônio na visão integral
do homem”, 2 de
abril de 1980. O texto pode
ser encontrado no site do
vaticano.
Notas e Referências:
[1]
O conteúdo deste texto foi
exposto em uma formação dada
pelo Pe Rafael Fornasier nos
arredores de Salvador, dia
20 de maio de 2011.
[2]
Cf. Catequese CXXXIII, “No
âmbito bíblico-teológico as
respostas às interrogações
sobre o matrimônio e a
procriação: síntese
conclusiva”, in JOÃO PAULO
II, Homem e Mulher o criou -
catequese sobre o amor
humano, PETRINI, J. C. e DA
SILVA, J. M. (Orgs), Bauru,
EDUSC, 2005, p. 526.
[3]
Catequese I, “Em colóquio
com Cristo sobre os
fundamentos da família”, in
JOÃO PAULO II, op. cit, p.
55.
[4]
PETRINI, C., “Fé e
razão para compreender o
homem e a mulher”, in JOÃO
PAULO II, op. cit., p. 14.
[5]
TOMAZ, E., “Descodificar o
homem novo na era digital”,
in L’Osservatore Romano,
n°II, 12 de março de 2011.
[6]
KALINOWSKI, G., “Compte
rendu”, in Revue
philosophique de Louvain,
Année 1961, vol. 59, n° 64,
pp. 25-726 (tradução livre).
Estas três esferas são
apresentadas através de um
esquema frequentemente
empregado pela Comunidade
Emanuel, quando das
formações para jovens e
casais: as três áreas do ser
(les zones de l’être).
[7]
É interessante notar
como o Espírito de Deus
inspira respostas atuais
para o nosso tempo de modo
concomitante, na
inteligência daqueles e
daquelas que o servem
buscando a verdade última do
homem! É nesta mesma época,
quando a encíclica propõe
métodos naturais em vista da
paternidade responsável, que
surgirá o Método Billings,
pesquisado e elaborado pelo
casal australiano John e
Evelyn Billings.
[8]
Tal era necessária à
compreensão cristã do
matrimônio, que João Paulo
II criou, junto à
Universidade Católica São
João do Latrão, em 1981, o
Instituto João Paulo II para
estudos sobre a Família e o
Matrimônio, que, no último
dia 13 de maio, completou 30
anos.
[9]
A palavra “evolução” não
deve ser entendida
necessariamente como
substituição de certas
posições e afirmações por
outras. Jacques Maritain
demonstra em seu livro “Sete
lições sobre o ser” que o
pensamento cristão procede
por aprofundameto mais do
que por substituição.
[10]
Em 1997, por ocasião
da primeira clonagem da
ovelha Dolly, a Pontifícia
Academia sobre a vida emitiu
algumas reflexões sobre o
tema. Em 2000, o Pontifício
Conselho para a família
escreveu uma declaração
sobre a redução embrionária.
[11]
O esquema que é proposto por
João Paulo II, nesta última
catequese, é subdividido em
seis grandes partes, como
nos são apresentadas no
livro contendo as
catequeses, editado tanto em
italiano como em português.
[12]
Cf. Catequese CXXXIII, JOÃO
PAULO II, op. cit., pp.
526-528.
[13]
Ibidem, p. 526.
[14]
Ibidem, p. 527.
.
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