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Todavia, há uma outra
palavra grega, usada no novo
testamento, para dizer que
alguém é bendito. Esta
palavra é usada no NT para
Deus (cf. 1Pd 1, 3; 2Cor 1,
3), para o próprio Jesus
(cf. Lc 1, 42; Jo 12, 13) ,
para Maria (cf. Lc 1, 42 ) e
também para os cristãos, mas
uma única vez. Vejamos o
trecho de Mt 25, 34: “Vinde,
benditos de meu Pai, tomai
posse da herança do Reino
preparado para vós desde a
fundação do mundo”.
Ainda na passagem de Mt 25,
vemos que estes “benditos”
designam os justos. Um pouco
mais adiante neste capítulo,
no v. 37, percebemos isto.
Assim, os justos agem de tal
forma que buscam a santidade
e a perfeição, por isso são
bem-aventurados, benditos
por transparecerem a ação de
Deus em suas vidas.
A
santidade do povo de Deus
segundo as Escrituras
Voltemos ainda um pouco
sobre as passagens das
Escrituras que nos falam da
santidade e, por
conseguinte, do fato de se
tornar santo. No princípio,
temos o texto de Lv 19, 2
que já citamos acima. Este
texto, Jesus o retoma ao seu
modo em Mt 5, 48. Porém,
Pedro o cita literalmente,
como já vimos.
O fundamento de toda
santidade está, obviamente,
em Deus (Qadowsh = Santo).
Desta fonte nós bebemos e
vivemos. A partir das
Escrituras, pode-se entender
o quanto Deus quer que
sejamos santos à sua
imitação, ou melhor, à
imitação de Cristo, que se
fez igual a nós. É por
Cristo e em Cristo que somos
santificados. A carta aos Hb
10, 10 diz o seguinte:
“graças a esta vontade é que
somos santificados pela
oferenda do corpo de Jesus
Cristo”. “De fato, com esta
única oferenda, levou à
perfeição, e para sempre, os
que ele santifica” (Hb 10,
14).
Podemos, portanto,
considerar-nos santificados,
pois Cristo já realizou esta
santificação uma vez por
todas. Contudo, devemos
viver sempre segundo a graça
do nosso Batismo, que trouxe
esta obra de Cristo em
nossas vidas. Já no AT e
mais ainda no NT não há
hesitações em chamar o povo
de santo, chamar os cristãos
de santos. Paulo diz o
seguinte: “Paulo, chamado
pela vontade de Deus
apóstolo de Cristo Jesus, e
o irmão Sóstenes, à Igreja
de Deus que está em Corinto,
aos santificados em Cristo
Jesus, chamados a ser santos
com todos aqueles que, em
todo lugar, invocam o nome
de Nosso Senhor Jesus
Cristo” (1Cor 1, 1-2). Na
conclusão desta mesma carta,
ele fala da coleta que
deveria ser destinadas aos
“santos” de Jerusalém, ou
seja, aos cristãos de
Jerusalém. Os santos eram
portanto os cristãos.
A este respeito, o
endereçamento de algumas
cartas não deixa dúvidas:
“Paulo, apóstolo de Jesus
Cristo, por vontade de Deus,
e o irmão Timóteo, à Igreja
de Deus que está em Corinto,
e a todos os santos da
inteira Acáia” (2Cor 1, 1).
Assim também em Ef 1, 1; Fl
1, 1; Col 1, 1. Não vamos
aqui citar todos as
passagens do NT, nas quais
os cristãos são chamados de
“santos”, mas só gostaríamos
de lembrar que são
aproximadamente setenta no
NT.
Como
se pode ter certeza que
alguém é santo?
Portanto, chamar o cristão
de santo era muito comum. O
cristão devia ser santo como
Deus, praticando as
bem-aventuranças, os
mandamentos, a caridade (cf.
Mt 25). Se os cristãos, que
trilhavam o caminho da
santidade, tinham confiança
de ser santificados por
Deus, e assim eram
designados santos, podemos
esperar que aqueles que
partiram desta vida dando
sinais visíveis de sua
caminhada na santidade já
estejam na santidade
perfeita. Jesus afirma que
uma árvore se conhece por
seus frutos (cf. Mt 12, 33).
De fato, pela vida concreta
de alguém que caminha na
santidade, já muitas vezes,
as pessoas que a conhecem,
declaram-na cheia de
santidade. Este senso comum
dos batizados a Igreja chama
de sensus fidei.
Além disso, pela graça do
perdão de Deus, podemos
esperar firmemente que uma
pessoa vá para o céu.
Lembremos do chamado “bom
ladrão”. Mesmo se não houve,
segundo o texto, um perdão
explícito dado por Jesus,
Jesus acolhe o "bom ladrão"
após este dizer que, ele e
seu amigo, mereciam aquilo,
e pedir a Jesus para
lembrar-se dele. Naquele
instante, Jesus diz que o
"bom ladrão" estaria no
paraíso com ele ainda
naquele dia. Então, Jesus
perdoa e dá a garantia de
entrada na vida eterna.
Assim também, os apóstolos
de Cristo e seus sucessores,
ao receber de Cristo este
mandado de perdoar os
pecados (cf. Jo 20, 22-23),
muitas vezes vão fazer a
experiência de introduzir
alguém no Reino dos céus, no
momento de sua morte. No
início da Igreja,
acreditava-se que depois do
Batismo não se podia mais
pecar, pois o Batismo
perdoava e salvava! Mas,
logo se percebeu que o
pecado ainda existia. Porém,
entendeu-se que o perdão de
Deus atualiza a salvação
realizada pela ação do
batismo.
Um outro elemento que nos
assegura que pessoas que
caminharam nas veredas da
santidade estarão no céu é a
passagem na qual Jesus diz
que os apóstolos estarão com
ele, em doze tronos,
julgando as tribos de Israel
(Mt 19, 28). Isto aparece
como resposta a Pedro, ao
perguntar o que ganhariam
eles ao largar tudo e
segui-lo. Na mesma linha do
julgamento do mundo, Paulo
também dá mais uma indicação
de que os santos desde
mundo, ou seja, os cristãos
que perseveram, serão santos
no céu. “Não sabeis que os
santos julgarão o mundo ? E
se é por vós que o mundo
será julgado, seríeis
indignos de proferir
julgamentos de menor
importância” (1Cor 6, 2).
Por último, a Igreja declara
alguém santo (ou
bem-aventurado) por meio do
ministério chamado “das
chaves do Reino”. É um
ministério de autoridade
divina. Alguns se
escandalizam com isto, mas
não foi a Igreja que o
inventou. “Dar-te-ei as
chaves do Reino dos Céus.
Tudo o que ligares na terra,
será ligado no céus; tudo o
que desligares na terra,
será desligado no céus” (Mt
16, 17). Esta autoridade de
ligar ou desligar, ou seja,
de fechar ou de abrir as
portas do Reino, que é um
serviço, se exerce, em
primeiro lugar, sobre o
poder de perdoar os pecados.
Contudo, tal autoridade é
exercida também em afirmar
seguramente que alguém está
de fato no céu, em santidade
perfeita, depois de terem
sido avaliados sua vida, seu
caminhar, seus frutos etc.
A
intercessão dos santos
diminui algo na única
mediação de Cristo?
Qualquer um de nós faz ou já
fez a experiência de pedir a
outros que rezem ou orem por
si. Vamos a alguém que
consideramos justamente mais
próximo de Deus. Mesmo que a
pessoa tenha uma prática
assídua de sua fé, muitas
vezes ela faz este gesto de
recorrer a outrem.
Alguns, no entanto, afirmam
que isto seria colocar
alguém entre Deus e si
mesmo. O que não deveria
haver. Ora, o próprio Jesus
já colocou pessoas entre ele
e nós, entre nós e Deus. Ele
diz em Jo 20, 21: “Assim
como o Pai me enviou, eu vos
envio”. Ou ainda, em Lc 10,
16, “quem vos escuta, a mim
escuta, quem vos rejeita, a
mim rejeita”. Ou seja, se há
um único mediador entre Deus
e os homens – e estamos
todos de acordo com esta
premissa (cf. 1Tm 2, 5) –
ainda assim, é necessário
que este único mediador
tenha que ser conhecido e
amado. E para isto ele
enviou os seus discípulos. E
não só para ser conhecido e
amado, mas também, como se
lê nos textos acima, para
serem seus embaixadores (cf.
2Cor 5, 20), isto é, seus
representantes “legais”,
“acreditados”.
Portanto, quem vem em nome
de Cristo e age em seu nome,
está também acolhendo em
nome de Cristo. E se os
santos julgarão o mundo,
como dizia São Paulo, como
não poderiam já agora pedir
a Deus por seus irmãos que
ainda caminham? Como não
poderiam já agora interceder
pelo mundo que julgarão?
Nós acreditamos que os
santos que estão nos céus
intercedem junto a Deus por
nós. Este é um aspecto
importante da comunhão dos
santos, que professamos
todos os domingos. E isto
não tira nada da única
mediação de Cristo, pois foi
ele quem quis depender de
outros, para que anunciassem
seu nome e levassem muitos a
ele, pelo caminho da
santidade, das
bem-aventuranças.
Desta forma, é esta
intercessão que pedimos ao
Papa João Paulo II, pois ele
é declarado beato,
bem-aventurado santo pela
Igreja,
por tudo que realizou em sua
vida. E com certeza está
junto de Deus, pedindo por
toda Igreja, em particular
pela paróquia Nossa Senhora
dos Alagados.
Notas e
Referências:
[1]
Parece que, com o passar do
tempo, perdeu-se de tal modo
este título muito usado nas
primeiras comunidades
cristãs e presente também
nos escritos dos padres.
Seria, talvez, pelo fato de
que a noção de santidade se
tenha vinculado muito ao
martírio dos primeiros
séculos, e, como nem todos
eram martirizados, caíra em
desuso? Ou seria pelo fato
da palavra “santo” ser
empregada para os grandes
confessores, os monges, os
místicos e taumaturgos da
história da Igreja, fazendo
com que os outros se
sentissem excluídos de tal
vocação? O que é certo é que
foi preciso que o Vaticano
II retomasse este ideal de
santidade endereçado a todos
os batizados, sem exceção e
segundo o estado de vida de
cada um. Porém, na história
da espiritualidade, vemos,
por exemplo, um São
Francisco de Sales tentar
dar um novo fôlego ao
chamado à santidade para
todos.
[2]
Obviamente que não estamos
aqui a confundir os títulos
canônicos de “Beato” e
“Santo”, com suas
respectivas modalidades de
reconhecimento canônico.
Sobre isto há abundância de
comentários disponíveis em
sites e revistas atuais. No
entanto, nosso intuito foi
essencilamente lembrar, a
partir das Escrituras, que
um bem-aventurado não está
ainda aguardando para entrar
na santidade perfeita – por
mais que haja diferentes
“moradas” na vida eterna -
pois já viveu em tudo a
vontade de Deus.
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