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 A Santidade Segundo as Escrituras


Pe Rafael Cerqueira Fornasier, padre da Comunidade Emanuel, escreve artigo acerca da santidade. Este artigo é fruto de ensino proferido na Arquidiocese de Salvador.

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                    A SANTIDADE SEGUNDO AS ESCRITURAS
.                                                                 Por Pe Rafael Cerqueira Fornasier

Bem-aventurado, bendito, abençoado

De onde vem a expressão “bem-aventurado”? Com certeza, muitos dentre nós devem saber que esta é uma expressão que se encontra no evangelho de Mt 5, 3-10 (cf. também Lc 6, 20 ss). Estamos aí no início do sermão da montanha, primeiro grande sermão do evangelho de Mateus (cf. Mt 5-7). Com efeito, “bem-aventurado” é uma forma de felicitação. Por isso, em algumas traduções da Bíblia, lemos também “felizes”.
 

O “bem-aventurado”, podemos dizer ao ler o resto do capítulo cinco do evangelho de Mateus, é aquele que vive realmente o Reino de Deus no hoje de sua vida e aguarda com esperança a realização plena deste na vida futura. São Mateus está colocando, na verdade, já no início deste capítulo, o fundamento para a vida perfeita segundo Deus. Ele conclui o capítulo dizendo: “Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48). Texto similar ao de Lv 19, 2, onde se pode ler: “Sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou Santo”. Ou seja, o caminho de perfeição é o caminho da santidade. No início do AT Deus intima o povo à santidade, e no início do NT, Jesus confirma este chamado! Encontramos a mesma citação na primeira carta de São Pedro: “Em conformidade com o Santo que vos chamou, tornai-vos santos, também vós, em todo o vosso comportamento. Pois está escrito: ‘Sede santos como eu sou santo’” (1Pd 1, 15-16).
 

E a palavra “beato”? Este vocábulo tem sua raiz em “bendito(a)”. Significa ser abençoado. A expressão “bem-aventurado”, as palavras “bendito” e “abençoado” são termos correlatos. Não são idênticos, mas se aproximam muito em função do emprego dos mesmos. De fato, o termo grego para “bem-aventurado” (macarios) também pode ser traduzido por “bendito”. Seria, então, um feliz abençoado!    

 
 

 

Todavia, há uma outra palavra grega, usada no novo testamento, para dizer que alguém é bendito. Esta palavra é usada no NT para Deus (cf. 1Pd 1, 3; 2Cor 1, 3), para o próprio Jesus (cf. Lc 1, 42; Jo 12, 13) , para Maria (cf. Lc 1, 42 ) e também para os cristãos, mas uma única vez. Vejamos o trecho de Mt 25, 34: “Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse da herança do Reino preparado para vós desde a fundação do mundo”.
Ainda na passagem de Mt 25, vemos que estes “benditos” designam os justos. Um pouco mais adiante neste capítulo, no v. 37, percebemos isto. Assim, os justos agem de tal forma que buscam a santidade e a perfeição, por isso são bem-aventurados, benditos por transparecerem a ação de Deus em suas vidas.
 

A santidade do povo de Deus segundo as Escrituras

Voltemos ainda um pouco sobre as passagens das Escrituras que nos falam da santidade e, por conseguinte, do fato de se tornar santo. No princípio, temos o texto de Lv 19, 2 que já citamos acima. Este texto, Jesus o retoma ao seu modo em Mt 5, 48. Porém, Pedro o cita literalmente, como já vimos.
 

O fundamento de toda santidade está, obviamente, em Deus (Qadowsh = Santo). Desta fonte nós bebemos e vivemos. A partir das Escrituras, pode-se entender o quanto Deus quer que sejamos santos à sua imitação, ou melhor, à imitação de Cristo, que se fez igual a nós. É por Cristo e em Cristo que somos santificados. A carta aos Hb 10, 10 diz o seguinte: “graças a esta vontade é que somos santificados pela oferenda do corpo de Jesus Cristo”. “De fato, com esta única oferenda, levou à perfeição, e para sempre, os que ele santifica” (Hb 10, 14).
 

Podemos, portanto, considerar-nos santificados, pois Cristo já realizou esta santificação uma vez por todas. Contudo, devemos viver sempre segundo a graça do nosso Batismo, que trouxe esta obra de Cristo em nossas vidas. Já no AT e mais ainda no NT não há hesitações em chamar o povo de santo, chamar os cristãos de santos. Paulo diz o seguinte: “Paulo, chamado pela vontade de Deus apóstolo de Cristo Jesus, e o irmão Sóstenes, à Igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados a ser santos com todos aqueles que, em todo lugar, invocam o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo” (1Cor 1, 1-2). Na conclusão desta mesma carta, ele fala da coleta que deveria ser destinadas aos “santos” de Jerusalém, ou seja, aos cristãos de Jerusalém. Os santos eram portanto os cristãos[1].
 

A este respeito, o endereçamento de algumas cartas não deixa dúvidas: “Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, por vontade de Deus, e o irmão Timóteo, à Igreja de Deus que está em Corinto, e a todos os santos da inteira Acáia” (2Cor 1, 1). Assim também em Ef 1, 1; Fl 1, 1; Col 1, 1. Não vamos aqui citar todos as passagens do NT, nas quais os cristãos são chamados de “santos”, mas só gostaríamos de lembrar que são aproximadamente setenta no NT.
 

Como se pode ter certeza que alguém é santo?

Portanto, chamar o cristão de santo era muito comum. O cristão devia ser santo como Deus, praticando as bem-aventuranças, os mandamentos, a caridade (cf. Mt 25). Se os cristãos, que trilhavam o caminho da santidade, tinham confiança de ser santificados por Deus, e assim eram designados santos, podemos esperar que aqueles que partiram desta vida dando sinais visíveis de sua caminhada na santidade já estejam na santidade perfeita. Jesus afirma que uma árvore se conhece por seus frutos (cf. Mt 12, 33).
De fato, pela vida concreta de alguém que caminha na santidade, já muitas vezes, as pessoas que a conhecem, declaram-na cheia de santidade. Este senso comum dos batizados a Igreja chama de sensus fidei.
 

Além disso, pela graça do perdão de Deus, podemos esperar firmemente que uma pessoa vá para o céu. Lembremos do chamado “bom ladrão”. Mesmo se não houve, segundo o texto, um perdão explícito dado por Jesus, Jesus acolhe o "bom ladrão" após este dizer que, ele e seu amigo, mereciam aquilo, e pedir a Jesus para lembrar-se dele. Naquele instante, Jesus diz que o "bom ladrão" estaria no paraíso com ele ainda naquele dia. Então, Jesus perdoa e dá a garantia de entrada na vida eterna. Assim também, os apóstolos de Cristo e seus sucessores, ao receber de Cristo este mandado de perdoar os pecados (cf. Jo 20, 22-23), muitas vezes vão fazer a experiência de introduzir alguém no Reino dos céus, no momento de sua morte. No início da Igreja, acreditava-se que depois do Batismo não se podia mais pecar, pois o Batismo perdoava e salvava! Mas, logo se percebeu que o pecado ainda existia. Porém, entendeu-se que o perdão de Deus atualiza a salvação realizada pela ação do batismo.
Um outro elemento que nos assegura que pessoas que caminharam nas veredas da santidade estarão no céu é a passagem na qual Jesus diz que os apóstolos estarão com ele, em doze tronos, julgando as tribos de Israel (Mt 19, 28). Isto aparece como resposta a Pedro, ao perguntar o que ganhariam eles ao largar tudo e segui-lo. Na mesma linha do julgamento do mundo, Paulo também dá mais uma indicação de que os santos desde mundo, ou seja, os cristãos que perseveram, serão santos no céu. “Não sabeis que os santos julgarão o mundo ? E se é por vós que o mundo será julgado, seríeis indignos de proferir julgamentos de menor importância” (1Cor 6, 2).
 

Por último, a Igreja declara alguém santo (ou bem-aventurado) por meio do ministério chamado “das chaves do Reino”. É um ministério de autoridade divina. Alguns se escandalizam com isto, mas não foi a Igreja que o inventou. “Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus. Tudo o que ligares na terra, será ligado no céus; tudo o que desligares na terra, será desligado no céus” (Mt 16, 17). Esta autoridade de ligar ou desligar, ou seja, de fechar ou de abrir as portas do Reino, que é um serviço, se exerce, em primeiro lugar, sobre o poder de perdoar os pecados. Contudo, tal autoridade é exercida também em afirmar seguramente que alguém está de fato no céu, em santidade perfeita, depois de terem sido avaliados sua vida, seu caminhar, seus frutos etc.
 

A intercessão dos santos diminui algo na única mediação de Cristo?

Qualquer um de nós faz ou já fez a experiência de pedir a outros que rezem ou orem por si. Vamos a alguém que consideramos justamente mais próximo de Deus. Mesmo que a pessoa tenha uma prática assídua de sua fé, muitas vezes ela faz este gesto de recorrer a outrem.
Alguns, no entanto, afirmam que isto seria colocar alguém entre Deus e si mesmo. O que não deveria haver. Ora, o próprio Jesus já colocou pessoas entre ele e nós, entre nós e Deus. Ele diz em Jo 20, 21: “Assim como o Pai me enviou, eu vos envio”. Ou ainda, em Lc 10, 16, “quem vos escuta, a mim escuta, quem vos rejeita, a mim rejeita”. Ou seja, se há um único mediador entre Deus e os homens – e estamos todos de acordo com esta premissa (cf. 1Tm 2, 5) – ainda assim, é necessário que este único mediador tenha que ser conhecido e amado. E para isto ele enviou os seus discípulos. E não só para ser conhecido e amado, mas também, como se lê nos textos acima, para serem seus embaixadores (cf. 2Cor 5, 20), isto é, seus representantes “legais”, “acreditados”.
 

Portanto, quem vem em nome de Cristo e age em seu nome, está também acolhendo em nome de Cristo. E se os santos julgarão o mundo, como dizia São Paulo, como não poderiam já agora pedir a Deus por seus irmãos que ainda caminham? Como não poderiam já agora interceder pelo mundo que julgarão?
 

Nós acreditamos que os santos que estão nos céus intercedem junto a Deus por nós. Este é um aspecto importante da comunhão dos santos, que professamos todos os domingos. E isto não tira nada da única mediação de Cristo, pois foi ele quem quis depender de outros, para que anunciassem seu nome e levassem muitos a ele, pelo caminho da santidade, das bem-aventuranças.
 

Desta forma, é esta intercessão que pedimos ao Papa João Paulo II, pois ele é declarado beato, bem-aventurado santo pela Igreja[2], por tudo que realizou em sua vida. E com certeza está junto de Deus, pedindo por toda Igreja, em particular pela paróquia Nossa Senhora dos Alagados.

 

Notas e Referências:

[1] Parece que, com o passar do tempo, perdeu-se de tal modo este título muito usado nas primeiras comunidades cristãs e presente também nos escritos dos padres. Seria, talvez, pelo fato de que a noção de santidade se tenha vinculado muito ao martírio dos primeiros séculos, e, como nem todos eram martirizados, caíra em desuso? Ou seria pelo fato da palavra “santo” ser empregada para os grandes confessores, os monges, os místicos e taumaturgos da história da Igreja, fazendo com que os outros se sentissem excluídos de tal vocação? O que é certo é que foi preciso que o Vaticano II retomasse este ideal de santidade endereçado a todos os batizados, sem exceção e segundo o estado de vida de cada um. Porém, na história da espiritualidade, vemos, por exemplo, um São Francisco de Sales tentar dar um novo fôlego ao chamado à santidade para todos.


[2] Obviamente que não estamos aqui a confundir os títulos canônicos de “Beato” e “Santo”, com suas respectivas modalidades de reconhecimento canônico. Sobre isto há abundância de comentários disponíveis em sites e revistas atuais. No entanto, nosso intuito foi essencilamente lembrar, a partir das Escrituras, que um bem-aventurado não está ainda aguardando para entrar na santidade perfeita – por mais que haja diferentes “moradas” na vida eterna - pois já viveu em tudo a vontade de Deus.  

 


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